Mistero Buffo

Escrito em sua primeira versão em 1969, continuamente representado e modificado em função da resposta do público, Mistero Buffo, na sua grafia original,  é considerado o símbolo da frota textual de Dario Fo.

Trata-se de um texto político, dos mais claros desde suas primeiras apresentações.  São mais de 20 monólogos baseados em episódios sacros com delicado respeito e sincera emoção.

Dario retorna à Idade Media, à maneira que os jograis interpretavam a Bíblia e o Evangelho, para encenar suas parábolas do comportamento do poder e de quem está submetido ao poder.

“Mistérios” era a denominação que recebiam os dramas litúrgicos que contavam as histórias de Cristo e sua Paixão, durante o período medieval. Havia, no entanto, versões populares destes “mistérios”, geralmente realizadas por jograis. Para o povo, o teatro (e o teatro grotesco em particular) sempre foi o meio principal de expressão, de comunicação e, também, de provocação de ideias.

Dario Fo, inspirado em suas pesquisas, recolheu episódios dos jograis (giullarata, em italiano), adaptou-os à realidade atual e deu-lhes o título de Mistero Buffo. Exatamente por se tratarem de “mistérios” feitos em tons bufos ou profanos.

No espetáculo selecionamos quatro destes quadros, adaptando-os à linguagem do palhaço.

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO: uma “jogralice” do século XV, que fala de um milagre muito conhecido, transformado num grande evento de celebridades.

O CEGO E O ESTROPIADO: uma moralidade do século XIV, registrada por escrito graças a um grande jogral, Jean Lavy. É a história de dois miseráveis que se encontram e bolam um plano para pedir esmolas juntos. Mas no caminho se encontram com um tal de Jesus Cristo...

O LOUCO E A MORTE e O JOGO DO LOUCO DEBAIXO DA CRUZ: estes quadros fazem parte dos chamados monólogos da paixão. Uma voz emocionada e inconformada contra os desígnios implacáveis dos desfavorecidos.

Histórico

Dario Fo, o Nobel Italiano de Literatura (97) e também o dramaturgo vivo mais representado no mundo, ao pesquisar a Idade Media, duvidou da história oficial, estudou as figuras dos jograis, colocou mais comicidade e inaugurou o teatro moderno com suas extraordinárias performances.

Mistero Buffo estreou no final dos anos 60, enquanto a Itália passava por sérios problemas econômicos. Em seus mais de 20 monólogos, Dario Fo defendia os trabalhadores e se engajava na luta de classes, utilizando o passado como metáfora do presente. Foi chamado O Jogral dos Tempos Modernos.

A história da Itália é (evidentemente) muito mais antiga que a do Brasil.

Em nossa Idade Média havia índios, não havia Inquisição. Alguns de nossos maiores problemas são a violência e a corrupção. E foi levando isto em conta que adaptamos os ideais “socialistas” da época às necessidades “sociais” de hoje. Conservamos as histórias, as situações e toda a estrutura do texto. Mas “abrasileiramos” os problemas e o linguajar. No teatro popular, é a atualidade que conta.

Não é fácil traduzir e adaptar qualquer texto de Dario e, em especial, Mistero Buffo.

Por se tratar de teatro popular, Dario se valeu dos dialetos. Não se pode dizer que haja dialetos no Brasil, mas a fala brasileira se adapta às regiões, aos estados, turmas e galeras. Buscamos essas linguagens para encontrar o tom que, longe de ser literário, se revelasse atual.

Dario faz estes quadros em forma de monólogos. A performance solitária de Dario no palco é estupenda e impossível de ser “imitada”.

Então, o que Dario e o LaMinima teriam em comum?

Em primeiro lugar o ser “palhaço”, com sua ciência e truques experimentados há séculos.

Palhaços existem em várias versões. No palco, no picadeiro, no cinema ou nas ruas, eles surgem com ou sem maquilagem (Chaplin e Buster Keaton são exemplos). Podem andar em dupla (como o LaMinima) ou desacompanhados (como Dario).

A extraordinária dupla de palhaços, Domingos Montagner e Fernando Sampaio, acompanhada do também palhaço, ator e músico Fernando Paz, hoje, apresentam a obra prima do único Prêmio Nobel que também é palhaço: um palhaço monologante e sem maquilagem.

Quando criança, Dario ouvia as histórias fantásticas dos fabuladores na região dos lagos da Lombardia. Com eles aprendeu a estrutura narrativa dos jograis. Em nosso espetáculo brasileiro, os estamos ligando, também, à nossa literatura de cordel e aos “causos” caipiras. As origens são as mesmas. Mas as manifestações populares têm a ver com cada país.

Criticando e denunciando, a comédia de Dario trás, para a cena, as universais tragédias humana. E trás, também, os espectadores para bem perto. Na nossa estética, as pessoas também podem assistir em total comunhão com o elenco, pois é dessa forma que os atores do LaMinima se sentem mais “em casa”, já que eles vêm do circo. Como Dario, eles também querem sentir a respiração, as risadas, as reações e a presença do público. A fome, as injustiças sociais, a luta pela sobrevivência são assuntos de arlequins, palhaços, jograis, bobos da corte e tantos outros. Para serem vistos com crítica e leveza, precisam ser compartilhados com o público. Trata-se do riso coletivo de aproximação. Esse foi o riso que conduziu e pontuou nossos ensaios e que é a essência da  comédia: o riso festivo que celebra a vida.

Nosso processo criativo foi extremamente feliz e prazeroso.

Também infinitamente prazerosa é a honra de estar dirigindo um trabalho no consagrado palco do SESI – São Paulo: um palco popular, com a missão de levar cultura à população, formando novos públicos.

Com este espetáculo, pretendemos homenagear Dario Fo e todos os palhaços do mundo, abordando temas muito complexos com a simplicidade do cômico popular.

Que o público desfrute deste prazer!

por Neyde Veneziano 

Temporada
  • Temporada de Estréia de 22 de março  a 03 de junhoo / 2012 no Teatro do SESI-SP - São Paulo.

Festivais
  • “FIT – FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO – [MG/2012]

Indicações
  • 02 INDICAÇÕES PRÊMIO SHELL, PRIMEIRO SEMESTRE 2012: Melhor Ator – Domingos Montagner / Melhor Direção – Neyde Veneziano

  • 03 INDICAÇÕES PRÊMIO COOPERATIVA PAULISTA DE TEATRO 2012 - Melhor Elenco /  Melhor Espetráculo de Sala / melhor Trilha Sonora Original

Ficha Técnica

Autor: Dario Fo

Concepção: La Mínima e Neyde Veneziano

Direção: Neyde Veneziano

Assistência de direção: André Carrico e Ioneis Lima

Tradução: Neyde Veneziano e André Carrico

Elenco: Domingos Montagner, Fernando Sampaio e Fernando Paz

Iluminação: Wagner Freire

Cenografia: Domingos Montagner

Confecção de Cenografia e Arte: Maria Cecília Meyer

Figurino: Inês Sacay

Direção Musical / Música Original: Marcelo Pellegrini

Música Incidental: “O Romance das Caveiras”; Alvarenga, Ranchinho e Chiquinho Sales

Poema Musicado: “Ave Maria das Eleições”; Leandro Gomes de BarrosDireção Mímica: Alvaro AssadIlustrações do Programa: Dario FoDireção de Produção e Administração: Luciana Lima
Fotos: Carlos Gueller
Secretária: Gisele Silva
Produção: LaMínima
Realização: SESI-SP
Duração: 75 minutos